quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um Telegrama

[Foram 20 minutos só para tomar conhecimento do ocorrido.
Tive que esfregar os olhos após reconhecer o remetente.
Senti a pulsação da veia no meu pescoço, as lágrimas secas nos meus olhos e o bater esperançoso do coração.
De repente lembrei-me que tinha um corpo: imóvel, plasmado, espinhento e eriçado! Até abrir o envelope caminhei devagar até o hall do prédio.
Destaquei lentamente as partes coladas enquanto o elevador esperava ansioso por meu comando.
Apertei o 2.
Subi.
“chegou, sorriu, venceu depois chorou”.
Reli a primeira frase tentando dar a mim mesma aquilo que estava recebendo.
Como num ato de merecimento.
Mas não podia.
A culpa era como um beijo no rosto morto.
Gelada!
E me possuía inteira, viva, cruel!
Estava tudo ali.
Escrito.
Um telegrama pra consolar a tristeza!

Mais importante que o texto é o fato.
E eu já conhecia-o de tempos atrás.
“bom é mesmo amar em paz”
Mas sou fraca, dúbia.
Há uma charlatã dentro de mim, embora eu fale a verdade.
Eu sinto tanta pulsação, tanta gravidade.
Como me dói controlar os impulsos, ser amena, leve, esquecida!

Fiz o que era mais urgente: uma prece.
E descobri que só através do sofrimento se encontra a felicidade.
Tenho medo de mim pois estou sempre apta a sofrer.
Às vezes tão fortuitamente!
Gratuitamente!– Mas há de se considerar que a vida se faz tímida para os apaixonados, não perdoando os trechos confusos, os protestos orgânicos e o brado alto e estridente da dor!
Felicidade reverbera dentro de mim, é emanação minha.
Sofrer é inevitável!

Fui trêmula ao encontro de mim!
O verbo já não era meu.
Transcendi e me permiti amar.
Se eu não me amar estarei perdida – "porque ninguém me ama a ponto de ser eu."
Nem mesmo ele! Sabedoria de Clarice.

Não quero viver-te como se a morte já nos tivesse separado. Quero a espontaneidade de uma flor que permanece aberta mesmo nos interstícios da escuridão!
Peço perdão pelo equívoco]

NAMASTÊ